História do Blues - Missippi Delta Blues Bar

Chuck Berry

#BluesHistory #ChuckBerry
John Lennon já afirmou: "Se o rock and roll tivesse outro nome, ele se chamaria Chuck Berry". E é verdade. Se existe alguém que merece o título de pai do rock, certamente seria o lendário músico. Falecido em março deste ano, aos 90 anos, Chuck Berry deixou uma extensa carreira que é referência fundamental para o gênero. Ele foi um dos primeiros artistas a unificar subgêneros do blues que eram bastante populares nos EUA no período posterior à Segunda Guerra Mundial e ter ajudado a criar um novo gênero que mudaria para sempre a história da música. 
O início de Berry na vida musical retrata a difícil situação de vulnerabilidade social que passava na época. Quando jovem, foi pego em uma tentativa de assalto a mão armada e condenado a uma pena de três anos em um reformatório. No local, montou um grupo e passou a realizar apresentações que inclusive se estendiam para além dos muros da prisão. Após ser solto, decidiu prosseguir com a carreira. 
Apesar da intensa segregação racial que vigorava nos EUA dos anos 1950, o blues já era reconhecido como um legítimo gênero artístico e havia sido inspiração para os estilos de jump blues e rhythm and blues (ou R&B). Ambos os ritmos seguiam por caminhos diversificados: o primeiro era composto de uma batida acelerada, próxima às ‘big bands’, enquanto o segundo possuía referências em vertentes como soul, funk e hip-hop e pop (que eram executadas por diversos músicos negros na época). Berry juntou o que existia de melhor nos dois segmentos, e gravou, em 1955, a canção Maybellene. A música, registrada pela Chess Records (grande gravadora do blues nos anos 50 e 60) serviu como o patamar inicial de uma carreira na qual o músico desenvolveu a técnica e a atitude típicas do rock’n roll.
A partir de então, Berry lançaria uma série de singles, incluindo Rock n Roll Music, Sweet Little Sixteen e Johnny B. Goode, que vendeu um milhão de discos em 1958, atingindo o número um da Billboard. Ao longo da sua trajetória como artista, foi uma das referências de grandes bandas que consolidaram o gênero, como The Beatles, Animals e Rolling Stones. Essa última literalmente baseou seu estilo de tocar rock 'n' roll dele. Quando Keith Richards premiou Berry no Hall da Fama, disse: "É difícil pra mim apresentar Chuck Berry porque eu copiei todos os acordes que ele já tocou!".
Quando estava no auge da carreira, em 1959, Berry foi preso novamente, desta vez após ser condenado por ter entrado com uma menor de idade para trabalhar no clube noturno que mantinha em St. Louis. Após cumprir pena, foi solto em 1966, porém não alcançou o sucesso de antes. 
Porém, mesmo após o sucesso, na década de 80, Berry mantinha uma média de 100 apresentações por ano em todo o território norte-americano. Viajando sempre sozinho, selecionava uma banda local para se unir a ele no palco. Depois disso, entre 1994 e 2014, ele tinha o compromisso de se apresentar mensalmente em um bar próximo da cidade onde morava, Ladue, Missouri.
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Women In Blues

#BluesHistory #WomenInBlues
A trajetória do blues foi construída por mulheres fortes, independentes e talentosas. Elas personificaram valores associados à defesa do feminismo e da igualdade de direitos, questões brutalmente negligenciadas no período após a abolição da escravidão nos EUA. 
No ambiente conservador do início da década de 1920, as dificuldades para a mulher negra continuavam as mesmas do período escravagista: forte intolerância social, trabalho incessante e condições paupérrimas de vida. A duras penas, as mulheres artistas conseguiam o reconhecimento por seu trabalho. Dotadas de autonomia e personalidade para lidar com um ambiente muitas vezes hostil – atraindo a atenção justamente pela independência e por saberem cantar, atuar e dançar – ainda hoje elas podem ser consideradas símbolos de uma causa que perpassa etnias, condição social e (por que não?) distinção de gênero, porque busca promover a igualdade entre as pessoas: o feminismo.
A lista de mulheres que marcaram época no blues é extensa. Entre as pioneiras, estão Mamie Smith, - que em 1920 foi oficialmente a primeira a registrar uma canção em voz feminina - Bessie Smith, conhecida como a Imperatriz do Blues e Memphis Minne, a primeira mulher a cantar e tocar violão e fazer as próprias composições.
Outra mulher notável no universo no blues é Ma Rainy, conhecida por reinventar o gênero. Explorou as apresentações com mais afinco, colocando-as em um teatro e passando a utilizar dinâmicas cênicas durante os shows. Fora dos palcos, a artista tinha um comportamento assumidamente devasso, promovendo festas recheadas de doses extremas de libertinagem. A cantora – que possuía marido e filhos – se posicionava tranquilamente como bissexual (assim como Bessie Smith) em algumas de suas canções. 
Ainda destacam-se como ícones dessa época, Clara Smith, Sippy Wallace e Alberta Hunter. Após a década de 20, em função da ascensão do jazz e de outros gêneros musicais, a presença da mulher no blues reduziu. Chippie Colina, que havia deixado o blues em 1930 para cuidar dos sete filhos, retornou à cena musical em 1946, e recuperou o prestígio obtido até a data da sua morte, em 1950. 
Em 1968, Koko Taylor, chamada de “rainha do blues”, encantou o mundo com sua voz marcante. Após a sua morte, em 2009, seu legado permaneceu vivo através do trabalho da cantora e instrumentista Victoria Spivey, que interpreta músicas que antes estavam na voz de Koko.
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Bottle Trees

#BluesHistory #BottleTrees

A História das Bottle Trees

O tema que batizou o MDBF 2016, Bottle Tree (ou árvore de garrafa, em português) é mais do que um somente um adereço estético, trata-se de uma prática milenar associada a múltiplos significados simbólicos, folclóricos e religiosos. Foi trazida da África para América do Norte durante a escravatura e adotada nas plantações do Sul dos EUA pelosescravos negros que entoavam o coro das canções usadas para marcar o ritmo da colheita – essas foram base para o surgimento do blues como gênero musical. 
Normalmente montada com garrafas coloridas colocadas sobre os galhos de uma árvore de mirto crepe (ou uma armação de metal), a bottle tree está associada a uma série de valores espirituais. A tradição remete ao Congo do século IX, período no qual os nativos deixavam garrafas de vidro do lado de fora da casa para afastar os maus espíritos. Segundo a crença, as garrafas capturavam entidades malignas, que eram atraídas devido às cores brilhantes dos objetos. Com a luz do dia, eram destruídas. O som de gemido feito pelo vento ao passar sobre as aberturas de garrafa seria “uma prova” de que o espírito está preso.
Além disso, eram um importante elemento dos rituais mágicos de Hodoo africanos, nos quais o objeto – colocado em uma encruzilhada, um local de grande mistério e poder, segundo a prática folclórica – exercia uma espécie de conexão simbólica entre o reino dos vivos e dos mortos, como um “ponto de passagem” entre as duas dimensões. Da América do Norte, a bottle tree migrou para a Europa – dando origem à famosa bola de cristal das bruxas – e para o resto do mundo, se tornando um prestigiado item de arte popular e decoração de jardim. 
As árvores de garrafas carregam uma história atrelada à memória das culturas africanas, e por conseqüência, às próprias raízes do blues. São parte fundamental de um mesmo universo cultural que se multiplica em diversas vertentes – seja nas artes visuais, música, literatura, dança ou outros segmentos artísticos – e que segue em constante transformação.
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Highway 61

ROTA 61 – THE GREAT RIVER ROAD Tal como sugere a faixa-título do álbum “Highway 61 Revisited” de Bob Dylan, a estrada é um retrato da linda poética de desencanto que caracteriza a cultura do blues e personifica a quintessência do gênero. A rodovia inicia no norte dos EUA, em Saint Paul, em Minnesota, passa por Memphis, pelo delta do Mississippi, chegando até a Louisiana, extremo sul . De localidades próximas a essa “estrada do blues” surgiram lendas como Robert Johnson, Muddy Waters, Son House e B. B. King. A “The Great River Road” pode ser considerada um legado vivo da memória que permanece enraizada no ambiente urbano e nos hábitos culturais locais.  A Rota 61 percorre mais de oito estados e 2,3 mil km ao longo do curso do rio Mississippi, através de localidades que serviram de base para a gênese e profusão do blues como gênero musical e referência cultural em todo o mundo. Essas regiões são o berço das canções melancólicas de origem espiritual cantadas pelos escravos norte-americanos, que ajudaram a criar o blues e outras tendências como jazz, soul, country blues e rock and roll. A Rota 61 também é lembrada como o caminho pelo qual os negros deixaram Mississippi para encontrar melhores oportunidades de vida após o período escravocrata.  Além de música – muita música, diga-se passagem, seja em ambientes públicos, ou na grande quantidade de bares, restaurantes ou juke joints – a rodovia passa por locais únicos, de intensa efervescência cultural, como Museu Stax da Soul Music, em Memphis, antiga sede da gravadora Stax Records, onde famosos artistas como Isaac Hayes, Aretha Franklin, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis gravaram algumas de suas músicas.
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Rosa´s Lounge - Chicago

BLUES HISTORY 
ROSA’S LOUNGE

A história do blues é constituída de altos e baixos. Desde o seu surgimento e posterior afirmação como um legítimo gênero musical, o estilo passou por diversas transformações. A própria raiz cultural africana que serviu de base para o desenvolvimento do blues também foi alterada em solo norte-americano devido à influência dos valores locais. No entanto, existem recantos nos quais o blues permanece conectado a essa origem, tanto no estilo visual dos ambientes como nas atrações que se apresentam nestes locais. Um deles é o Rosa´s Lounge, localizado em Chicago, dedicado a preservar a tradição do blues sulista norte-americano. 

O Rosa´s iniciou as atividades com o propósito de manter o mesmo espírito dos juke joints do deep south – como o lendário Theresa´s Lounge, uma das principais referências da fidelidade ao estilo original do blues – e busca ser uma homenagem a estes estabelecimentos, ao mesmo tempo em que mantém vivo o legado deixado por quem deu os primeiros passos na história do blues. O estabelecimento existe há 32 anos e possui o nome da mãe do proprietário, Tony Manguillo, imigrante italiano que chegou a Chicago em 1974 fascinado com o gênero após conhecer Jr. Wells e Buddy Guy em Milão. Tony, já estabelecido em Chicago, trouxe a Mamma Rosa da Italia que pode ser vista corriqueiramente atendo os clientes atrás do balcão ou autografando um postar com sua foto no passado.

A lista de atrações do Rosa´s agrega nomes tradicionais como David Honeyboy Edwards, Homesick James e Pinetop Perkins, além de artistas locais Billy Branch, Melvin Taylor e Sugar Blue. Outros representantes da segunda geração do blues como Eddie Taylor Jr. e Lurrie Bell também marcam presença por lá. 
O Rosa´s Lounge foi nomeado pelo New York Times como o “Melhor Clube de blues de Chicago” e é considerada uma “Meca para verdadeiros amantes do blues” pela revista Rolling Stone.
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Ground Zero - Clarksdale/MS

Ground Zero é um dos bares mais tradicionais do gênero nos EUA e uma das principais referências do autêntico Blues do Delta do Mississippi. Localizado no centro histórico da cidade de Clarksdale – um dos pontos de gênese do estilo – ainda carrega as características e valores associados ao universo do blues em todos os seus aspectos, desde a preservação da sonoridade, como a estética dos bares sulistas norte-americanos e a gastronomia típica da região. 
Ponto obrigatório de visitação para os entusiastas, o estabelecimento é focado em manter a essência característica dos juke joints de beira de estrada onde nasceu o blues. As cadeiras e paredes são rabiscadas, as mesas possuem toalhas e adornos improvisados e a decoração é aparentemente aleatória e desorganizada, com adereços como quadros, placas de automóvel, bandeiras, bottons, neons e luzes de natal espalhados por todo o ambiente.
Como uma forma de respeitar a herança do Blues nativo e preservar o legado dos primeiros músicos que se apresentaram nos juke joints locais, o local concede prioridade aos artistas regionais, proporcionando uma experiência legítima do Blues do Delta. 
O menu também é fiel às tradições sulistas e oferece pratos típicos, como hambúrgueres suculentos, fried catfish crocante e BBQ de porco defumado. Um dos proprietários do estabelecimento é o ator norte-americano Morgan Freeman, que é natural da cidade.
 
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WDIA - Memphis

Rádio WDIA – Bastião do blues e dos direitos sociais 
“O coração e a alma de Memphis”. O slogan da rádio WDIA mostra a importância que a emissora adquiriu no decorrer da sua história, tanto para a sua cidade, no estado do Tennessee (EUA), como também para o resto do mundo. A estação inaugurada em 1947 – e que existe até os dias de hoje – se tornou uma espécie de patrimônio universal para os amantes do blues e para a cultura negra em geral. Ao longo dos anos, se firmou como um dos mais importantes canais de disseminação do estilo e de outros gêneros vinculados à cultura afrodescendente norte-americana, como jazz e soul.
Ironicamente, a rádio iniciou as atividades com um foco totalmente diferente de público com o qual obteve sucesso. O conceito planejado pelos proprietários J. Pepper e B. Ferguson era baseado em country e pop e não obteve ressonância junto à sociedade local. Seis meses após o lançamento da emissora e com as contas no vermelho, a solução encontrada para manter a rádio ativa foi ousada para a época. Mesmo com intensa segregação racial, lançaram o Tan Town Jubilee, primeiro programa comandado por um negro - Nat D. Williams - e voltado estritamente à comunidade negra (que representava 40% da população de Memphis na época). A atração atingiu grande sucesso, e em pouco tempo, a emissora se tornou a mais ouvida na Beale Street, a famosa avenida de três quilômetros em Memphis repleta de clubes de blues. 
Com o resultado positivo, o pioneirismo da emissora em combater a segregação se intensificou e abriu caminho para a primeira voz feminina no rádio, Willa Monroe. Também serviu de base para o surgimento de estrelas do blues e do rock que iniciavam as carreiras por ali, como Rufus Thomas, Elvis Presley e B.B. King. Esse último, aliás, possuía um programa de rádio na emissora e dividia seu tempo trabalhando nas plantações de algodão no Arkansas em West Memphis.
Em 1954, a WDIA era, de longe, a corrente mais ouvida em Memphis. Direcionando seu sinal para o Sul da América do Norte, a estação expandiu sua capacidade de emissão para 50 mil watts e atingiu 10% da população afro-americana inteira. Nesse período, se notabilizou pelas ações sociais, como o Goodwill Fund (“fundo da boa vontade”, em português), que arrecadava recursos para o transporte de crianças negras com deficiência e bolsas de estudos universitárias. Ao longo dos anos, o programa arrecadou US$ 900 mil.
Em 1996, a WDIA foi comprada por um conglomerado de comunicações norte-americano, mas sua história e legado permanecem vivos como símbolos do ativismo social e luta contra a intolerância racial. O site oficial da emissora éonlineradiobox.com/us/wdia/?cs=us.wdia&played=1&lang=pt .
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Bottle Caps Art


Historicamente, a cultura negra permeia várias formas da expressão da vida humana, e a arte é mais uma delas. Nesse sentido, o Blues, como uma das principais identidades artísticas do universo negro norte-americano, também se constitui como influência significativa na área das artes plásticas. 
Uma dessas referências pode ser observada na tradicional arte da região do Mississippi. A técnica, chamada de Bottle Caps, se caracteriza pela colagem de materiais recicláveis – como tampinhas, isqueiros, rolhas e placas de automóveis – em uma espécie de mosaico, no qual cada objeto possui uma personalidade singular e representa a memória de fato passado, proporcionando uma ligação afetiva e um significado especial. Essa prática é originária de alguns países da África Central e visa proteger, transmitir e santificar o conhecimento real e esotérico. 
Atualmente Bottle Caps Art é considerada uma das expressões plásticas que melhor representam o Blues e sua história na região do Mississippi.
 
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Juke Joints

O termo Juke Joint designa os estabelecimentos localizados em comunidades norte-americanas de descendentes negros e africanos, a partir do período escravocrata. Nesses ambientes, se disseminou uma cultura fundamental para a gênese do blues. 
Os Juke joints – geralmente construídos em rústicas casas de madeira – eram os únicos locais onde negros podiam expressar a angústia e a dor vivenciados com a escravidão. O blues canalizava, portanto, a revolta contra o marginalização e o preconceito da sociedade com relação aos negros (origem do termo 'feeling blue’). Práticas como beber, cantar e dançar - características marcantes dos juke joints - eram maneiras dos negros se integrarem, em meio à forte repressão da época.
Juke Joints, além de um retrato da intolerância social de uma época, também são uma inspiração artística, cultural e social para as próximas gerações.
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Voodoo

O blues e o voodoo estão mais próximos do que se poderia perceber à primeira vista. Por incrível que pareça, o nascimento da prática ritualística em solo americano está relacionada com a origem do blues.
O voodoo remonta a um contexto no qual o negro escravo, afastado da terra nativa, tenta manter viva a identificação com as próprias práticas místicas. Assim, desprovido de se manifestar religiosamente, “canta” o seu desalento (o chamado worksong), que, com sua sonoridade carregada e jeito de falar característico, veio a se tornar um dos pilares do blues. 
A meta é o acesso às forças sobrenaturais através de rituais médicos e mágicos, com todo tipo de material - todo tipo mesmo, desde ervas até objetos pessoais de um indivíduo e fluidos corpóreos. 
O voodoo possui muitos adeptos nas terras onde nasceu o blues, especialmente em Nova Orleans. A religião Louisiana Voodoo, por exemplo, (também conhecida como New Orleans Voodoo) incorpora conjuntos de crenças e práticas espirituais derivados da África.
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CHESS RECORDS

  O endereço Michigan Avenue, 2120, em Chicago, Illinois, é muito importante para a história do blues. Ali existiu a Chess Records, gravadora responsável pela difusão do gênero em todo o mundo. 
A gravadora surgiu de um bar mantido pelos descendentes de poloneses Philip Chez e Leonard Chez, o Macomba Lounge. Ao observar que os músicos que tocavam no local – muitos deles imigrantes do Mississippi – não tinham canções registradas, eles mesmos iniciaram esse processo. Assim, surgiu a Aristocrat Records (que mais tarde passaria a se chamar Chess Records, americanização do sobrenome dos irmãos).
O lendário Muddy Waters foi um dos primeiros a usar o selo da gravadora, em 1947. Outros grandes nomes que tiveram suas vozes captadas ao longo dos 21 anos de história da Chess são Howlin Wolf, Little Walter, Chuck Berry, Boy Williamson, Fulson Lowell, Memphis Slim, Jimmy Rogers, John Lee Hooker e Willie Mabon.
Após a morte de um dos fundadores, Philip, em 1974, a gravadora fechou suas portas, vendida para All Platinum Records, de Nova Jersey. Para tentar preservar o legado musical que a estrutura representa, o prédio foi comprado pela viúva de Willie Dixon (um dos grandes nomes da Chess), em 1997, e se tornou o Blues Heaven Foundation, museu dedicado à memória da gravadora e dos artistas que a representaram.  
A Chess Records foi tema de um filme lançado em 2008, intitulado Cadillac Records, estrelado por Adrien Brody, Beyoncé e Mos Def.
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Cotton Pickers

Em meio às exaustivas jornadas de trabalho do povo negro escravizado nas fazendas de algodão teve origem a primeira e mais importante forma cultural da etnia em solo norte-americano: o blues. As terras localizadas às margens do rio Mississippi foram solo fértil para as plantações durante o período escravocrata. Após a proibição da escravatura, alguns negros ganharam terras, porém ainda eram submetidos aos preços firmados pela elite branca. 
As melodias lentas e chorosas que marcavam o ritmo da colheita de algodão expressavam as angústias e sonhos de um povo injustiçado, distante da sua terra natal. Um dos maiores bluesmen de todos os tempos, B.B King, foi criado junto às plantações de algodão. Ele declarou que o primeiro som de blues que ouviu foi quando trabalhava nesses campos durante a infância e adolescência. O objetivo de toda sua a carreira, segundo ele, foi simplesmente reproduzir as melodias que ouviu nesses lugares.  
Os melancólicos cânticos que no início do século XIX significavam a ânsia de liberdade dos negros oprimidos deram sustentação a um gênero musical que hoje é considerado uma das principais influências da música contemporânea. Do ritmo característico do blues, nasceram o jazz, soul, disco, rock'n roll, country e diversas outras vertentes musicais. Como diria a lenda do blues Willie Dixon “The blues is the roots, the rest are the fruits” (O blues é a raiz, o resto são os frutos”).
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Maxwell Street

O berço do blues em Chicago.
O Near West Side, em Chicago, tem uma forte tradição musical. Foi lá que o grande Benny GoodMan aprendeu o clarinete. E foi em uma rua chamada MaxWell Street que o Blues se aprimorou após a sua eletrificação, se transformou e se adaptou à nova realidade. Não é a toa que foi nessas redondezas que diversos selos e gravadoras, incluindo a lendária Chess Records (de Howlin’Wolf, Muddy Waters, Pinetop Perkins …) surgiram. Esses artistas foram profundas influências no desenvolvimento do Rock n’ Roll e transformaram o blues em um verdadeiro fenômeno de Chicago a partir da década de 1940.
Os negros migrantes do sul começaram a frequentar a Maxwell Street por ser uma possibilidade de ganhar algum dinheiro extra. Era um dos poucos lugares onde um músico negro podia se apresentar. Conjuntos tocavam pelas calçadas e pelas ruas adjacentes pelo dinheiro que os transeuntes colocavam nas suas canecas. As melhores performances reuniam um público maior e, consequentemente, ganhavam mais. Os donos de negócios na área eram incentivadores. Muitas vezes forneciam energia do próprio estabelecimento, deixando tudo pronto para alimentar os microfones e amplificadores dos músicos. Alguns chegaram a montar selos, lançando os primeiros artistas do gênero.
Apesar de ser o centro de uma área altamente residencial, a Maxwell Street era, antes de tudo, um grande mercado. No princípio, habitada principalmente por judeus, foi o primeiro gueto da cidade, e à medida que esses moradores iam ficando mais prósperos, se mudavam para outras áreas. Porém, muitos mantiveram suas lojas na rua MaxWell, enquanto uma grande quantidade de negros e mexicanos chegavam para habitar a vizinhança. Desde sempre, a área foi um lugar de diversidade étnica, onde todos se misturavam e queriam barganhar. Costuma se dizer que a única cor que importava era o “verde”. A rua ficou eternizada com a cena em que John Lee Hooker toca na calçada, no clássico filme The Blues Brothers, de 1980. No auge de sua popularidade, o mercado chegou a ocupar seis quarteirões e a contabilizar 60 mil pessoas em domingos típicos de pechinchas entusiasmadas e trombadinhas habilidosos.
A MaxWell Street era, como definiu o escritor local Nelson Algren, “cheia de superstições, ciência, religião, comida, remédios físicos e espirituais, trapos, seda, pipoca, guitarras, rádios - uma extraordinária mistura de todas as civilizações e raças.” Lá, o ambicioso passava de pedinte a vendedor ambulante, de ambulante a dono de barraca, de dono de barraca a dono de loja e assim por diante. Muitos fizeram esse caminho e abriram possibilidades para os jovens que vieram depois deles. No final da década de 1930, eram 200 lojas, 100 ambulantes e mais de 200 barracas. Ali começava o início da década de ouro da MaxWell Street, que durou mais de 20 anos. Foi quando imigrantes do leste europeu chegaram e juntaram-se à mistura local, trazendo novos olhares, sons e cheiros. Tudo isso acontecendo ao som de amplificadores valvulados, tocando Bottleneck Blues Eletrificado. Mas a chegada dos automóveis mudou o mercado especialmente quando foram construídas as primeiras vias expressas no final da década de 1950.
Potenciais clientes e seus negócios começaram a sair dos subúrbios. Uma dessas vias cortou a Maxwell Street e obrigou o mercado a se deslocar, diminuindo o seu tamanho. A criação da Universidade de Illinois, em 1965, deslocou alguns clientes antigos, mas trouxe milhares de estudantes à redondeza. Assim, a área continuou atraente para empreendedores, clientes e amantes da música de rua e do entretenimento, pelas décadas de 1960 e 1970. Porém no final da década de 1970, a região começou a desvalorizar. Surgiram diversos planos de transformar a rua, impediram a renovação predial, o que impulsionou a deterioração da área. A Universidade de Illinois continuava crescendo e precisava de espaço para abrigar seus 25.000 alunos. Em 1994, o mercado foi deslocado para o leste. Nesse meio tempo, a Universidade começou um lento processo de reavaliação e expansão que levaria a construção de um abrigo para milhares de estudantes e residentes da comunidade, novos prédios e espaço renovado para alguns poucos negócios. É possível ter uma noção da realidade desse lugar emblemático para o Blues através do documentário Cheat Your Fair: The Story of MaxWell Street (2006).
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A Encruzilhada

As religiões de matriz africana, como a umbanda e candomblé, enxergam as encruzilhadas como locais de mistério e poder. A cruz vista nessa intersecção de caminhos é um símbolo universal que representa uma “pausa no tempo”, ou seja, um ponto de transição, o limiar de uma mudança de estágio em relação ao outro. Ao depositar uma oferenda em um local como esse, se invoca certa entidade. No entanto, para um olhar cristão, acostumado aos seus próprios conceitos de religião, esse tipo de ritual é visto de forma deturpada, como um ato pagão, e, portanto, demoníaco. 
Talvez seja por isso que nasceu a lenda urbana que fala do pacto com o demônio em uma encruzilhada. Segundo essa visão, o demo apareceria disfarçado de homem ou mulher após a realização de uma oferenda para conceder qualquer tipo de desejo, em troca da alma do autor do pedido.
O cruzamento das rodovias US 61 e US 49, em Claksdale, no estado do Mississippi, EUA, está relacionado com esse mito. A conhecida história que cerca o local conta que teria sido ali, na exata intersecção entre as duas rodovias, que o ícone do blues Robert Johnson teria vendido sua alma ao diabo.  
Segundo reza uma das versões do conto, o “acordo” teria sido firmado em uma noite de lua nova, na qual Johnson, situado à espera no ponto de encontro, teria avistado um homem – o próprio demo disfarçado, claro – que se ofereceu para afinar seu instrumento. A partir daí, de acordo com o mito, as pessoas que ouvissem o bluesman tocando iriam ser hipnotizadas por ele. 
Tal como uma releitura contemporânea do mito de Fausto – que vendeu sua alma em troca da sabedoria e da técnica – o dito encontro do renomado músico com o demônio é uma história de caráter misterioso, que intensifica ainda mais a aura de obscuridade que envolve a figura do artista. Isso porque muitas informações relativas à sua obra e vida são imprecisas, desde a suposta vinculação a “forças ocultas” até as suas datas de nascimento e morte (as mais aceitas dão conta do nascimento em 8 de maio de 1911 e morte em 16 de agosto de 1938).
Originada em um contexto no qual a superstição sobre mitos demoníacos fazia parte do imaginário popular – e reforçada pelas diversas canções com alusões ao diabo, como Me and the Devil Blues, Hellhound on my Trail e Crossroad Blues – a lenda surgia como “explicação” para algumas das atitudes estranhas do músico, como ficar de costas para o público. Isso revelaria a tentativa de escapar do olhar do diabo que aparecia durante seus shows. Outros acreditam que isso aconteceria por conta da desfiguração de seu rosto devido à “possessão demoníaca”. Uma versão mais realista afirma que ele apenas visava evitar que outro músico da plateia copiasse seus acordes originais.  
Clarksdale, a cidade mais próxima ao local do dito pacto, é considerada o local de nascimento do blues e se trata de uma atração imperdível para os amantes do gênero, com inúmeros locais históricos importantes na história do blues e juke joints, dentre eles Ground Zero, que tem como um dos sócios o ator Morgan Freeman, nascido no Mississippi, e Red's Lounge, um dos últimos juke joints originais ainda em atividade.
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Mojo Hand

Uma mistura de raízes, ervas, pedras semi-preciosas, pequenos ossos de animais e até fios de cabelo, guardada em um saco de flanela, que pode ser escondido sob a roupa ou em algum recinto. Mais conhecida no folclore africano como mojo hand (mas também chamada de nation sack, wanga, wanger e oanga, em culturas similares) tal combinação de ingredientes, assim como uma espécie de amuleto, possui um sentido mágico e especial para o seu portador. Os nativos africanos que deram origem à tradição consideram que a manipulação desses itens carrega uma força espiritual, que ajuda a manter contato com os antepassados, tidos como fonte de proteção e influência para atingir determinados fins, como, por exemplo, afastar os maus espíritos, ter boa sorte, esbanjar fortuna ou ser desejado por alguém. 
A mojo hand pertence ao hodoo, ritual de magia popular derivado da África e atualmente famoso nas bandas de New Orleans. Essa prática remonta a antigas tradições folclóricas africanas e possui forte aproximação com o universo do blues. É mais um dos elementos de origem afro que se misturaram à cultura americana por conta da escravatura. 
Para além de uma mera superstição, a mojo hand advém de uma cultura milenar que se transformou no decorrer dos tempos e se constitui como referência cultural, estética e espiritual. Como não podia deixar de ser, a lista de bluesman que fazem referências à prática é extensa. Robert Johnson, em Come On In My Kitchen, mostra um personagem submetido a um tipo especial da técnica, usada por mulheres para manter a fidelidade dos homens. Muddy Waters, em Got My Mojo Working, e Lightnin Hopkins, em Mojo Hand, narram idas até Louisiana para obter uma ‘mão mojo’ e conquistar amores não-correspondidos. Até mesmo os Beatles já mencionaram o termo em uma de suas canções mais famosas, Come Together. Outros artistas como Ma Rainey, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Brownie McGhee, Memphis Jug Band e Texas Alexander também possuem composições que remetem à mojo hand.