História do Blues - Missippi Delta Blues Bar

A História do Piano no Blues por Gustavo Pezzi (RS)


               Dentre os instrumentos que foram adotados pelo blues, a história do piano é, de longe, a mais extensa e a que mais engloba diferentes estilos durante o seu percurso. Tentar contar a história deste instrumento é o mesmo que tentar contar a história da própria música desde 1500 até a atualidade. Um móvel desajeitado de madeira com geralmente sete ou oito oitavas de teclas pretas e brancas, martelos e cordas vibrando, pode-se dizer que o piano possui uma mecânica de produção de som relativamente simples. Porém, a força por trás do piano muito se deve à capacidade que ele proporcionou aos músicos de tocar diversas linhas melódicas ao mesmo tempo utilizando ambas as mãos, além de poder executar acordes e, portanto, explorar melhor os elementos harmônicos presentes nas músicas. Isto gerou um reconhecimento e um status de grande importância dentro da comunidade erudita, fazendo com que o piano fosse adotado pelos compositores clássicos como o principal instrumento para o arranjo e execução de músicas solo.
               Porém, dentro da variedade de estilos nos quais o piano foi utilizado no século passado, podemos notar que foi com o blues e com o seu filho jazz que o instrumento deu um salto de criatividade e conseguiu melhor explorar seu poder de criação e pressão. A história do piano no blues anda de mãos dadas com a história do piano no jazz, mas vamos tentar dividir os principais pontos entre um e outro para compreendermos melhor esta transição que começou no início do século XX e que mudou para sempre a maneira como encaramos este instrumento. Como mencionado, o piano sempre foi um ícone da cultura erudita européia, e poucas eram as famílias americanas que possuíam um piano em casa. E o repertório que se ouvia não fugia muito longe dos standards da música clássica. 
               Porém, um outro universo cultural estava começando a emergir. A cultura negra estava começando a dar suas caras e a introdução do piano neste novo mundo se deve muito à utilização dele como o instrumento chave dentro de bares e bordéis (fazendo com que o contato dos negros com o instrumento crescesse mais e mais). Outro fator que contribuiu também foi que, os pianos que antes pertenciam à classe média e alta começavam a perder a capacidade de afinação e eram muitas vezes doados ou até mesmo abandonados. Temos diversos exemplos de músicos que aprenderam a tocar estudando em pianos estragados que haviam sido abandonados. Professor Longhair, um ícone do piano blues, mencionou em uma entrevista que um dos primeiros pianos que ele tocou tinha a muitas de suas teclas quebradas e que esta dificuldade fez com que ele dominasse a técnica de inversão de acordes no piano como nenhum outro artista em New Orleans. 
              Podemos notar até hoje nas gravações de blues este timbre mais metálico e desafinado dos pianos. Tanto que, ao ouvir este timbre já lembramos da imagem de um saloon do sul/sudoeste onde os pianistas gritavam seus lamentos e martelavam um velho piano em meio a uma nuvem de fumaça e barulho de trabalhadores braçais de barragens, construtores de estrada de ferro e outros vários detalhes clichês da época. É difícil ouvir um som com esse timbre e pensar em um pianista vestido com smokin e gravata borboleta deslizando seus dedos graciosamente por um teclado reluzente. É junto com esse tipo de história que um timbre consegue criar algo muito importante para a sua sobrevivência. Geralmente chamamos isso de identidade sonora. 
               Os poucos livros que temos sobre o assunto apontam dois estilos básicos que iniciaram a revolução do piano no blues. Um mais sofisticado e outro extremamente primitivo. O primeiro é o ragtime, que surgiu da busca pela evolução musical dos instrumentistas negros e que veio ao encontro do que seria a origem do piano no jazz. E o segundo, como mencionado, era uma forma mais crua e primitiva de piano, o boogie woogie. Geralmente as peças de boogie woogie possuem um andamento rápido, cheio de energia e uma clara intenção dançante.
               Enquando o músico utiliza a mão esquerda para executar um padrão repetitivo ostinatto da linha de baixo, a mão direita se encarrega da melodia principal. Os nomes mais lembrados do estilo são Albert Ammons e Meade Lux Lewis. Como uma resposta a esta levada dançante do boogie woogie começamos a notar um estilo de piano mais lento, com uma aura mais urbana, acompanhado por uma conjunto (geralmente baixo, bateria, harmônica e guitarra), mas que mesmo assim ainda possuía um ar mais primitivo. Antes de continuarmos, entendam aqui que o termo ‘primitivo’ não significa simplicidade de execução, mas sim, pureza. Atingir da forma mais direta possível o objetivo do músico. Os pianistas deste estilo não possuíam grande técnica, usavam muita dissonância e não se utilizavam de noções musicais muito complexas, o que poderia comprometer o objetivo principal que era somente expressar o seu lamento da forma mais crua e direta possível. O termo ‘primitivo’ aqui defende expressar o que o músico deseja, sem enrolação, da maneira que ele mesmo se educou e, principalmente, da maneira mais pura possível. 
Dessa linha de músicos urbanos os nomes que não podemos deixar de mencionar são: Roosevelt Sykes, Sunnyland Slim, Ray Charles, Lerroy Carr, Pinetop Smith e Pinetop Perkins. Também podemos citar dois gigantes de New Orleans como Professor Longhair e Dr.John. E do círculo do blues de Kansas City, o pianista Jay McShann. Existe também a velha turma de Chicago que segue a clássica história da transição dos campos de plantação para a grande cidade em busca de emprego no período pós-guerra. Essa transição fez de Chicago o hotspot do blues nos anos 40 e 50, e dois dos grandes nomes que contribuíram para a cena do blues na cidade foram Memphis Slim e Otis Spann. Em especial Otis Spann, que foi sem dúvida um dos maiores nomes do piano no blues de todos os tempos. É muito lembrado como sendo o braço direito da lenda Muddy Waters na gravadora Chess e também possui alguns discos lançados em carreira solo. Infelizmente, Otis Spann morreu em 1970 com 40 anos de idade e não pode se estabelecer como a grande lenda do blues que merecia. Um importante material que conta um pouco da história destes grandes pianistas é o documentário Piano Blues, de Martin Scorsese e dirigido por Clint Eastwood. A obra inclui entrevistas com Ray Charles, Jay McShann, Dr.John, etc.
               E como não poderia deixar de mencionar, em paralelo a tudo isso temos a história do piano no jazz que se modificou do já mencionado ragtime e incorporou complexidades musicais e a malandragem urbana da cultura afro-americana. A história do piano no jazz é um enorme capítulo da música do século XX e aconselho a todos que desejam entender mais deste grande instrumento a procurar artistas como Count Basie, Duke Ellington, Thelonius Monk, Gene Harris, Oscar Peterson e Red Garland.
               Por fim, não é difícil notar que qualquer tentativa de abraçar todas as ramificações da história do piano no blues é uma tarefa com fim distante. E como toda a bibliografia que se propõe a abrir a história do blues, iríamos acabar por abrir a história completa da evolução social e humana do século XX. Mas tirando a filosofia histórica de lado, o mais importante foi que, um pedaço grande e desajeitado de madeira, teclas, martelos e algumas cordas desafinadas conseguiram derrotar preconceitos de um século inteiro e, principalmente, ainda conseguem transmitir da forma mais crua e direta possível o sentimento mais forte até hoje conhecido pelo homem: o blues.
Foto: Johnny Nicholas (MDBF 2014)
Créditos: André Tiago Susin                      
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Highway 61

ROTA 61 – THE GREAT RIVER ROAD Tal como sugere a faixa-título do álbum “Highway 61 Revisited” de Bob Dylan, a estrada é um retrato da linda poética de desencanto que caracteriza a cultura do blues e personifica a quintessência do gênero. A rodovia inicia no norte dos EUA, em Saint Paul, em Minnesota, passa por Memphis, pelo delta do Mississippi, chegando até a Louisiana, extremo sul . De localidades próximas a essa “estrada do blues” surgiram lendas como Robert Johnson, Muddy Waters, Son House e B. B. King. A “The Great River Road” pode ser considerada um legado vivo da memória que permanece enraizada no ambiente urbano e nos hábitos culturais locais.  A Rota 61 percorre mais de oito estados e 2,3 mil km ao longo do curso do rio Mississippi, através de localidades que serviram de base para a gênese e profusão do blues como gênero musical e referência cultural em todo o mundo. Essas regiões são o berço das canções melancólicas de origem espiritual cantadas pelos escravos norte-americanos, que ajudaram a criar o blues e outras tendências como jazz, soul, country blues e rock and roll. A Rota 61 também é lembrada como o caminho pelo qual os negros deixaram Mississippi para encontrar melhores oportunidades de vida após o período escravocrata.  Além de música – muita música, diga-se passagem, seja em ambientes públicos, ou na grande quantidade de bares, restaurantes ou juke joints – a rodovia passa por locais únicos, de intensa efervescência cultural, como Museu Stax da Soul Music, em Memphis, antiga sede da gravadora Stax Records, onde famosos artistas como Isaac Hayes, Aretha Franklin, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis gravaram algumas de suas músicas.
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Um Pequeno Histórico Sobre o Blues por Flávio Guimarães (RJ)

          A história da escravidão na América do norte guarda uma imensa diferença em relação ao Brasil. Inicialmente os instrumentos e a música em geral eram fortemente reprimidos. Instrumentos de percussão eram totalmente proibidos, com o temor que se tornassem uma forma de comunicação que daria origem a rebeliões e outros conflitos. Em algum momento, alguns proprietários de terras percebem que a liberação do canto durante o trabalho estava aumentando a produtividade de suas fazendas e a nova idéia é rapidamente assimilada e espalhada pelo sul dos Estados Unidos. Surgem as Work Songs. 
          Com o processo de cristianização dos escravos, percebe-se cada vez mais o poder e a beleza de suas vozes e melodias. As antigas melodias da terra mãe africana se misturam aos hinos religiosos de origem européia, dando origem ao gospel. Da mistura das work songs e do gospel, surgiria o blues, semelhante na forma, porém com uma grande diferença na temática das letras, que passam a falar das condições reais de suas vidas. 
No início do século XX, o blues proliferava nos EUA. O caldeirão cultural de New Orleans absorvia diferentes culturas musicais que deram origem ao jazz, entre elas o blues. Músicos aprendiam a tocar os diversos estilos vigentes sem distinção e havia um enorme intercambio de idéias. Em 1903, W. C. Handy compõe St. Louis Blues. É a primeira vez que o blues entra numa partitura, encontrando uma eficiente forma de propagação. 
          Com a entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, ocorre um enorme êxodo para as áreas industriais do país, em especial Chicago, que atrai uma grande leva de imigrantes do Sul em busca de melhores oportunidades de empregos e qualidade de vida. Começa a surgir o blues urbano de Chicago. Dentre seus primeiros ícones, John Lee Williamson, também conhecido com Sonnyboy Williamson I, que viria a falecer precocemente vítima de um latrocínio. Sua inovação na linguagem da harmônica de blues coloca o instrumento numa posição de destaque e sua influência, tanto nas canções quanto na forma de tocar, afetou profundamente as gerações seguintes. 
          No início da década de 50, o blues é eletrificado por nomes como Muddy Waters, Little Walter e Jimmy Rogers. É a Era de Ouro do Blues, com a gravadora Chess Records lançando um sucesso atrás do outro. Howling Wolf, Sonnyboy Williamson II, Chuck Berry, Bo Didley e tantos outros ícones lançam seus álbuns de sucesso pela gravadora. Esse riquíssimo período musical viria a ser determinante no nascimento do rock 'n'roll. 
O blues é uma manifestação cultural afro americana, que permaneceu segregada no seu país de origem até o início dos anos 60. Sua popularização em todo mundo foi conseqüência direta da valorização dessa forma de arte pelos europeus, em especial os ingleses. As primeiras gerações do rock inglês beberam diretamente na fonte do blues e toda a música pop criada a partir de então passa a ter sua influencia. Não existiria rock se não tivéssemos o blues e até o jazz soaria de outra forma sem ele. Hoje em dia, é difícil imaginar um estilo musical que não tenha sido tocado direta ou indiretamente pelo blues.
Foto: Robert Bilbo Walker
Créditos: Gustavo Faraco                        
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A História da Gaita no Blues por Flávio Guimarães (RJ)

A harmônica, ou simplesmente gaita, como é apelidada no Brasil, é o "menor" dos instrumentos musicais. Dessa excentricidade física, surge talvez o fascínio que esse instrumento quase invisível exerce nas pessoas. Como no aprendizado de qualquer outro instrumento, a harmônica requer dedicação e disciplina. Leva-se algum tempo para desenvolver a memória muscular específica para dominar até mesmo as mais elementares técnicas, tais como soprar e aspirar uma única nota de cada vez. 
Fazendo parte da família dos instrumentos de palheta livre inspirados em antigos instrumentos chineses como o shang, a harmônica foi inventada por um relojoeiro alemão, Christian Bushman, em 1821 e desenvolvida por um fabricante de instrumentos da Bohemia chamado Richter. Chegou à era da produção em massa através do também relojoeiro e renomado homem de negócios Mathias Hohner. Devido ao seu baixo custo, ele rapidamente se popularizou, chegando nos Estados Unidos na época da Guerra Civil, onde foi incorporada pelos afro-americanos, que com o passar do tempo foram descobrindo suas reais potencialidades. Criada na Alemanha, a gaita diatônica encontrou solo fértil nos Estados Unidos, onde o instrumento foi um dos alicerces da formação de um estilo musical que viria transformar toda música do século XX, o blues. 
A harmônica é um dos mais misteriosos instrumentos no que se refere ao seu aprendizado e às infinitas nuances possíveis de interpretação. Em primeiro lugar, o papel da visão é totalmente diverso do aprendizado de piano, sax, guitarra e da grande maioria dos instrumentos. A grande maioria das ações acontece dentro do nosso corpo, onde a visão em nada pode nos ajudar. No caso da harmônica cromática já existem algumas metodologias de ensino mais convencionais, em geral seguindo estruturas semelhantes às do aprendizado de outros instrumentos. Já na harmônica diatônica, os métodos costumam ser bastante limitados. 
Os instrumentos e a música estão em constante evolução. A cada dia, novos músicos incorporam diferentes técnicas e inovações. É praticamente impossível definir o que é certo e o que é errado em termos de técnicas empregadas, tipos de embocadura e formas diferentes de se produzir sons. O próprio termo harmônica diatônica nos parece impróprio, já que os recursos do instrumento estão de fato muito além da escala diatônica.
Foto: Jerry Portnoy (MDBF 2014)
Créditos: André Tiago Susin
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Bottle Caps Art


Historicamente, a cultura negra permeia várias formas da expressão da vida humana, e a arte é mais uma delas. Nesse sentido, o Blues, como uma das principais identidades artísticas do universo negro norte-americano, também se constitui como influência significativa na área das artes plásticas. 
Uma dessas referências pode ser observada na tradicional arte da região do Mississippi. A técnica, chamada de Bottle Caps, se caracteriza pela colagem de materiais recicláveis – como tampinhas, isqueiros, rolhas e placas de automóveis – em uma espécie de mosaico, no qual cada objeto possui uma personalidade singular e representa a memória de fato passado, proporcionando uma ligação afetiva e um significado especial. Essa prática é originária de alguns países da África Central e visa proteger, transmitir e santificar o conhecimento real e esotérico. 
Atualmente Bottle Caps Art é considerada uma das expressões plásticas que melhor representam o Blues e sua história na região do Mississippi.
 
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Juke Joints

O termo Juke Joint designa os estabelecimentos localizados em comunidades norte-americanas de descendentes negros e africanos, a partir do período escravocrata. Nesses ambientes, se disseminou uma cultura fundamental para a gênese do blues. 
Os Juke joints – geralmente construídos em rústicas casas de madeira – eram os únicos locais onde negros podiam expressar a angústia e a dor vivenciados com a escravidão. O blues canalizava, portanto, a revolta contra o marginalização e o preconceito da sociedade com relação aos negros (origem do termo 'feeling blue’). Práticas como beber, cantar e dançar - características marcantes dos juke joints - eram maneiras dos negros se integrarem, em meio à forte repressão da época.
Juke Joints, além de um retrato da intolerância social de uma época, também são uma inspiração artística, cultural e social para as próximas gerações.
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Voodoo

O blues e o voodoo estão mais próximos do que se poderia perceber à primeira vista. Por incrível que pareça, o nascimento da prática ritualística em solo americano está relacionada com a origem do blues.
O voodoo remonta a um contexto no qual o negro escravo, afastado da terra nativa, tenta manter viva a identificação com as próprias práticas místicas. Assim, desprovido de se manifestar religiosamente, “canta” o seu desalento (o chamado worksong), que, com sua sonoridade carregada e jeito de falar característico, veio a se tornar um dos pilares do blues. 
A meta é o acesso às forças sobrenaturais através de rituais médicos e mágicos, com todo tipo de material - todo tipo mesmo, desde ervas até objetos pessoais de um indivíduo e fluidos corpóreos. 
O voodoo possui muitos adeptos nas terras onde nasceu o blues, especialmente em Nova Orleans. A religião Louisiana Voodoo, por exemplo, (também conhecida como New Orleans Voodoo) incorpora conjuntos de crenças e práticas espirituais derivados da África.
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CHESS RECORDS

  O endereço Michigan Avenue, 2120, em Chicago, Illinois, é muito importante para a história do blues. Ali existiu a Chess Records, gravadora responsável pela difusão do gênero em todo o mundo. 
A gravadora surgiu de um bar mantido pelos descendentes de poloneses Philip Chez e Leonard Chez, o Macomba Lounge. Ao observar que os músicos que tocavam no local – muitos deles imigrantes do Mississippi – não tinham canções registradas, eles mesmos iniciaram esse processo. Assim, surgiu a Aristocrat Records (que mais tarde passaria a se chamar Chess Records, americanização do sobrenome dos irmãos).
O lendário Muddy Waters foi um dos primeiros a usar o selo da gravadora, em 1947. Outros grandes nomes que tiveram suas vozes captadas ao longo dos 21 anos de história da Chess são Howlin Wolf, Little Walter, Chuck Berry, Boy Williamson, Fulson Lowell, Memphis Slim, Jimmy Rogers, John Lee Hooker e Willie Mabon.
Após a morte de um dos fundadores, Philip, em 1974, a gravadora fechou suas portas, vendida para All Platinum Records, de Nova Jersey. Para tentar preservar o legado musical que a estrutura representa, o prédio foi comprado pela viúva de Willie Dixon (um dos grandes nomes da Chess), em 1997, e se tornou o Blues Heaven Foundation, museu dedicado à memória da gravadora e dos artistas que a representaram.  
A Chess Records foi tema de um filme lançado em 2008, intitulado Cadillac Records, estrelado por Adrien Brody, Beyoncé e Mos Def.
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Cotton Pickers

Em meio às exaustivas jornadas de trabalho do povo negro escravizado nas fazendas de algodão teve origem a primeira e mais importante forma cultural da etnia em solo norte-americano: o blues. As terras localizadas às margens do rio Mississippi foram solo fértil para as plantações durante o período escravocrata. Após a proibição da escravatura, alguns negros ganharam terras, porém ainda eram submetidos aos preços firmados pela elite branca. 
As melodias lentas e chorosas que marcavam o ritmo da colheita de algodão expressavam as angústias e sonhos de um povo injustiçado, distante da sua terra natal. Um dos maiores bluesmen de todos os tempos, B.B King, foi criado junto às plantações de algodão. Ele declarou que o primeiro som de blues que ouviu foi quando trabalhava nesses campos durante a infância e adolescência. O objetivo de toda sua a carreira, segundo ele, foi simplesmente reproduzir as melodias que ouviu nesses lugares.  
Os melancólicos cânticos que no início do século XIX significavam a ânsia de liberdade dos negros oprimidos deram sustentação a um gênero musical que hoje é considerado uma das principais influências da música contemporânea. Do ritmo característico do blues, nasceram o jazz, soul, disco, rock'n roll, country e diversas outras vertentes musicais. Como diria a lenda do blues Willie Dixon “The blues is the roots, the rest are the fruits” (O blues é a raiz, o resto são os frutos”).
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Maxwell Street

O berço do blues em Chicago.
O Near West Side, em Chicago, tem uma forte tradição musical. Foi lá que o grande Benny GoodMan aprendeu o clarinete. E foi em uma rua chamada MaxWell Street que o Blues se aprimorou após a sua eletrificação, se transformou e se adaptou à nova realidade. Não é a toa que foi nessas redondezas que diversos selos e gravadoras, incluindo a lendária Chess Records (de Howlin’Wolf, Muddy Waters, Pinetop Perkins …) surgiram. Esses artistas foram profundas influências no desenvolvimento do Rock n’ Roll e transformaram o blues em um verdadeiro fenômeno de Chicago a partir da década de 1940.
Os negros migrantes do sul começaram a frequentar a Maxwell Street por ser uma possibilidade de ganhar algum dinheiro extra. Era um dos poucos lugares onde um músico negro podia se apresentar. Conjuntos tocavam pelas calçadas e pelas ruas adjacentes pelo dinheiro que os transeuntes colocavam nas suas canecas. As melhores performances reuniam um público maior e, consequentemente, ganhavam mais. Os donos de negócios na área eram incentivadores. Muitas vezes forneciam energia do próprio estabelecimento, deixando tudo pronto para alimentar os microfones e amplificadores dos músicos. Alguns chegaram a montar selos, lançando os primeiros artistas do gênero.
Apesar de ser o centro de uma área altamente residencial, a Maxwell Street era, antes de tudo, um grande mercado. No princípio, habitada principalmente por judeus, foi o primeiro gueto da cidade, e à medida que esses moradores iam ficando mais prósperos, se mudavam para outras áreas. Porém, muitos mantiveram suas lojas na rua MaxWell, enquanto uma grande quantidade de negros e mexicanos chegavam para habitar a vizinhança. Desde sempre, a área foi um lugar de diversidade étnica, onde todos se misturavam e queriam barganhar. Costuma se dizer que a única cor que importava era o “verde”. A rua ficou eternizada com a cena em que John Lee Hooker toca na calçada, no clássico filme The Blues Brothers, de 1980. No auge de sua popularidade, o mercado chegou a ocupar seis quarteirões e a contabilizar 60 mil pessoas em domingos típicos de pechinchas entusiasmadas e trombadinhas habilidosos.
A MaxWell Street era, como definiu o escritor local Nelson Algren, “cheia de superstições, ciência, religião, comida, remédios físicos e espirituais, trapos, seda, pipoca, guitarras, rádios - uma extraordinária mistura de todas as civilizações e raças.” Lá, o ambicioso passava de pedinte a vendedor ambulante, de ambulante a dono de barraca, de dono de barraca a dono de loja e assim por diante. Muitos fizeram esse caminho e abriram possibilidades para os jovens que vieram depois deles. No final da década de 1930, eram 200 lojas, 100 ambulantes e mais de 200 barracas. Ali começava o início da década de ouro da MaxWell Street, que durou mais de 20 anos. Foi quando imigrantes do leste europeu chegaram e juntaram-se à mistura local, trazendo novos olhares, sons e cheiros. Tudo isso acontecendo ao som de amplificadores valvulados, tocando Bottleneck Blues Eletrificado. Mas a chegada dos automóveis mudou o mercado especialmente quando foram construídas as primeiras vias expressas no final da década de 1950.
Potenciais clientes e seus negócios começaram a sair dos subúrbios. Uma dessas vias cortou a Maxwell Street e obrigou o mercado a se deslocar, diminuindo o seu tamanho. A criação da Universidade de Illinois, em 1965, deslocou alguns clientes antigos, mas trouxe milhares de estudantes à redondeza. Assim, a área continuou atraente para empreendedores, clientes e amantes da música de rua e do entretenimento, pelas décadas de 1960 e 1970. Porém no final da década de 1970, a região começou a desvalorizar. Surgiram diversos planos de transformar a rua, impediram a renovação predial, o que impulsionou a deterioração da área. A Universidade de Illinois continuava crescendo e precisava de espaço para abrigar seus 25.000 alunos. Em 1994, o mercado foi deslocado para o leste. Nesse meio tempo, a Universidade começou um lento processo de reavaliação e expansão que levaria a construção de um abrigo para milhares de estudantes e residentes da comunidade, novos prédios e espaço renovado para alguns poucos negócios. É possível ter uma noção da realidade desse lugar emblemático para o Blues através do documentário Cheat Your Fair: The Story of MaxWell Street (2006).
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A Encruzilhada

As religiões de matriz africana, como a umbanda e candomblé, enxergam as encruzilhadas como locais de mistério e poder. A cruz vista nessa intersecção de caminhos é um símbolo universal que representa uma “pausa no tempo”, ou seja, um ponto de transição, o limiar de uma mudança de estágio em relação ao outro. Ao depositar uma oferenda em um local como esse, se invoca certa entidade. No entanto, para um olhar cristão, acostumado aos seus próprios conceitos de religião, esse tipo de ritual é visto de forma deturpada, como um ato pagão, e, portanto, demoníaco. 
Talvez seja por isso que nasceu a lenda urbana que fala do pacto com o demônio em uma encruzilhada. Segundo essa visão, o demo apareceria disfarçado de homem ou mulher após a realização de uma oferenda para conceder qualquer tipo de desejo, em troca da alma do autor do pedido.
O cruzamento das rodovias US 61 e US 49, em Claksdale, no estado do Mississippi, EUA, está relacionado com esse mito. A conhecida história que cerca o local conta que teria sido ali, na exata intersecção entre as duas rodovias, que o ícone do blues Robert Johnson teria vendido sua alma ao diabo.  
Segundo reza uma das versões do conto, o “acordo” teria sido firmado em uma noite de lua nova, na qual Johnson, situado à espera no ponto de encontro, teria avistado um homem – o próprio demo disfarçado, claro – que se ofereceu para afinar seu instrumento. A partir daí, de acordo com o mito, as pessoas que ouvissem o bluesman tocando iriam ser hipnotizadas por ele. 
Tal como uma releitura contemporânea do mito de Fausto – que vendeu sua alma em troca da sabedoria e da técnica – o dito encontro do renomado músico com o demônio é uma história de caráter misterioso, que intensifica ainda mais a aura de obscuridade que envolve a figura do artista. Isso porque muitas informações relativas à sua obra e vida são imprecisas, desde a suposta vinculação a “forças ocultas” até as suas datas de nascimento e morte (as mais aceitas dão conta do nascimento em 8 de maio de 1911 e morte em 16 de agosto de 1938).
Originada em um contexto no qual a superstição sobre mitos demoníacos fazia parte do imaginário popular – e reforçada pelas diversas canções com alusões ao diabo, como Me and the Devil Blues, Hellhound on my Trail e Crossroad Blues – a lenda surgia como “explicação” para algumas das atitudes estranhas do músico, como ficar de costas para o público. Isso revelaria a tentativa de escapar do olhar do diabo que aparecia durante seus shows. Outros acreditam que isso aconteceria por conta da desfiguração de seu rosto devido à “possessão demoníaca”. Uma versão mais realista afirma que ele apenas visava evitar que outro músico da plateia copiasse seus acordes originais.  
Clarksdale, a cidade mais próxima ao local do dito pacto, é considerada o local de nascimento do blues e se trata de uma atração imperdível para os amantes do gênero, com inúmeros locais históricos importantes na história do blues e juke joints, dentre eles Ground Zero, que tem como um dos sócios o ator Morgan Freeman, nascido no Mississippi, e Red's Lounge, um dos últimos juke joints originais ainda em atividade.
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Mojo Hand

Uma mistura de raízes, ervas, pedras semi-preciosas, pequenos ossos de animais e até fios de cabelo, guardada em um saco de flanela, que pode ser escondido sob a roupa ou em algum recinto. Mais conhecida no folclore africano como mojo hand (mas também chamada de nation sack, wanga, wanger e oanga, em culturas similares) tal combinação de ingredientes, assim como uma espécie de amuleto, possui um sentido mágico e especial para o seu portador. Os nativos africanos que deram origem à tradição consideram que a manipulação desses itens carrega uma força espiritual, que ajuda a manter contato com os antepassados, tidos como fonte de proteção e influência para atingir determinados fins, como, por exemplo, afastar os maus espíritos, ter boa sorte, esbanjar fortuna ou ser desejado por alguém. 
A mojo hand pertence ao hodoo, ritual de magia popular derivado da África e atualmente famoso nas bandas de New Orleans. Essa prática remonta a antigas tradições folclóricas africanas e possui forte aproximação com o universo do blues. É mais um dos elementos de origem afro que se misturaram à cultura americana por conta da escravatura. 
Para além de uma mera superstição, a mojo hand advém de uma cultura milenar que se transformou no decorrer dos tempos e se constitui como referência cultural, estética e espiritual. Como não podia deixar de ser, a lista de bluesman que fazem referências à prática é extensa. Robert Johnson, em Come On In My Kitchen, mostra um personagem submetido a um tipo especial da técnica, usada por mulheres para manter a fidelidade dos homens. Muddy Waters, em Got My Mojo Working, e Lightnin Hopkins, em Mojo Hand, narram idas até Louisiana para obter uma ‘mão mojo’ e conquistar amores não-correspondidos. Até mesmo os Beatles já mencionaram o termo em uma de suas canções mais famosas, Come Together. Outros artistas como Ma Rainey, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Brownie McGhee, Memphis Jug Band e Texas Alexander também possuem composições que remetem à mojo hand.